Arquivado em: Afixações Proibidas de João Ferreira Dias, Cultura, Sociedade Portuguesa
Desde a convenção da UNESCO sobre património imaterial poucas coisas têm acontecido neste país aos retalhos. Isto porque apesar das demais intervenções no sentido de alertar para a importância da cultura imaterial, o património material, e sobretudo arquitectónico, é visto como quase única expressão de cultura.
Portanto é crucial que se faça um inventário dos bens culturais de um país ou comunidade. No entanto, sem uma actuação séria, eficaz e dirigida por parte dos governos o património intangível ficará, certamente, reduzido a meras referências académicas.
Segundo a convenção da UNESCO cada país deverá proceder “de maneira adaptada à situação, um ou vários inventários do património cultural imaterial existente no seu território”.
É, neste processo, fundamental que se entenda as dimensões da cultura imaterial, as suas fronteiras para além do material e corpóreo. É primordial posicionar o património cultural imaterial como elemento da consciência colectiva de um povo. Porque mais do que a arquitectura e todos os elementos materiais, a tradição oral, isto é, os contos, as lendas, as canções, as charadas, os adágios, as danças, as crendices, são elementos distintivos da identidade de um povo. Por isso é fundamental que se proceda a um vasto trabalho de campo, a uma recolha tecnicamente acompanhada. É necessário um tratamento etnográfico e uma reflexão concreta de acordo com a Lei de Bases do Património Cultural, onde se afirma que “integram o património cultural as realidades que, tendo ou não suporte em coisas móveis ou imóveis, representem testemunhos etnográficos ou antropológicos com valor de civilização ou de cultura com significado para a identidade e memória colectivas”.
Reportando-nos mais seriamente para o nosso país aos retalhos, é forçoso que se entenda a relevância das tradições orais, o nosso passado tão intrinsecamente ligado ao legado “de boca em boca”, como os autos teatrais, lendas, rezas e fórmulas mágicas, contos jocosos e anticlericais, representações populares como o Enterro do Bacalhau, Serração da Velha, Queima do Judas, farmacopeias, hierofanias populares, bênçãos de gado, etc.
Janas, vila de Sintra, é um exemplo de uma terra onde as tradições de bênçãos de gado são populares. A Igreja da vila é palco, pela época das festas de Agosto em honra de S. Mamede, de um ritual próprio. Construída no século XVII sobre o templo de Diana, deusa do sol e dos animais, a igreja possui, assim, a atípica forma circular, assentando nos alicerces do templo romano. Por esta peculiaridade, aquando, das mesmas festas, os donos dos animais conduzem os mesmos em redor da igreja, no sentido do sol, enquanto o padre os benze, num ritual que mistura catolicismo e tradições politeístas.
No âmbito da recuperação das tradições, isto é, no sentido de inventário de cultura imaterial, o professor Adérito Tavares, docente da Universidade Católica Portuguesa, elaborou um livro apelidado de “A Capeia Arraiana”, onde faz uma exposição sobre a tradição de pega de touros, característica da sua região. Um passo independente no sentido da recolha de património imaterial.
Outro elemento característico da cultura imaterial é a arte do “saber-fazer” baseada na memória, no legado de pai para filho, uma herança de ofício e artesão.
Portugal é um país de brandas tradições ligadas ao legado oral, de memórias de artesão e artes, recheado de heranças imateriais. Recuperá-las e preservá-las é o passo a dar no sentido de garantir a sua preservação na lembrança histórica.
João Ferreira Dias
5 Comentários até agora
Publicar um comentário
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>
Ainda ontem quando vi uma entrevista com Pedro Almodovar a prpósito do seu último filme este dizia que “em Portugal as coisas ainda não estavam tocadas” referindo-se ao estado comparativamente imaculado do nosso Interior comparado com o Interior espanhol. Este é um efeito positivo do “ermanamento” que assola o nosso país e que esvazia o interior das suas gentes e as empurra para um cada vez mais sobrepovoado litoral… É uma das causas do fenómeno dos incêndios florestais e dos níveis altos níveis de depêndencia das importaçõea agrícolas… mas tem a vantagem de preservar o nosso património natural e histórico…
Comentário por Rui Martins Setembro 10, 2006 @ 12:52 pmgostei de lêr, não sabia que Sintra tinha essa tradição
conheço uma aldeia (séc XII) na qual assisti a uma festa do género, os rebanhos vinham de todos os lados enfeitados, passeavam em volta do adro da igreja e o padre benzia os mesmos.
assim existe a necessidade de proteger e saber transmitir esses valores às novas gerações, algo bastante difícil e moroso, mas que merece cuidado e respeito pois trata de alguma forma de toda a vivência de um povo e de uma nação
Comentário por um outro olhar Setembro 10, 2006 @ 4:37 pmSem mais, gostei imenso do teu artigo.
Comentário por Ludovicus Rex Setembro 10, 2006 @ 6:20 pmSe hovesse uma política séria como noutros países, O nosso país seria hoje muito mais rici do que é.
Portanto mãos à obra!
adoro o konhsq
Comentário por manuela Fevereiro 27, 2007 @ 3:26 pmbelhak
Comentário por joao Novembro 14, 2007 @ 9:19 am